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9ª parte: O compositor Paulo

 

 

A história reservou para Paulo um lugar na galeria dos líderes do samba, responsáveis pelo crescimento do grande espetáculo das escolas de samba em seus difíceis primeiros anos. Sua personalidade e espírito de liderança, de fato, acabaram ofuscando o Paulo compositor, que deixou como legado uma coleção de grandes obras musicais.

 

As obras musicais de Paulo, como era característico da produção musical de Oswaldo Cruz, fez-se dentro de um ambiente de amizade e respeito. Diferentemente do que ocorria com os compositores do Centro da cidade, em Oswaldo Cruz a verdadeira autoria de um samba era respeitada. Muitos acreditam que a obra musical de Paulo é muito mais extensa do que é oficialmente registrado, tendo sido em parte apropriada indevidamente por compositores do Centro da cidade, onde essa prática era comum.

 

A amizade com Heitor dos Prazeres, figura já conhecida nas rodas do Centro da cidade, inseriu Paulo num meio onde era possível conseguir fama e sucesso. O próprio Heitor dos Prazeres, segundo alguns amigos, possui algumas músicas que teriam sido de autoria de Paulo. Outras, como "Cantar pra não chorar", possuem a assinatura desses dois mestres da música brasileira.

 

Enquanto esteve à frente dos desfiles da Portela, Paulo compôs muitos sambas que a escola cantou na avenida, como "Teste ao Samba", "Guanabara", "Cidade Mulher" e "Homenagem à justiça". Especialmente em "Cidade Mulher", podemos perceber todo o talento do compositor Paulo, retratando numa bela poesia a alma carioca e a beleza de sua cidade.

 

Cidade mulher

(Paulo da Portela)

 

Cidade, quem te fala é um sambista,

Anteprojeto de artista,

Teu grande admirador

 

Me confesso boquiaberto,

De manhã, quando desperto

Com tamanho esplendor

 

Quando nosso infinito

Se apresenta tão bonito

Trajando azul anil

 

Baila o sol lá nas alturas

Dando maior formosura

À mais linda dama do Brasil

Cidade mulher

 

Como é linda suas matas,

Seus riachos e cascatas,

Deslumbrar-me é natural

 

Diante de tal beleza

Que lhe deu a natureza

Se há outra, não vi igual

 

Quando a tarde é cor de rosa

Ainda é mais formosa

Tem cenário sedutor

 

Te admiram estrangeiros

Se orgulham os brasileiros

Seu poetas sonhadores

 

Sambas como "Cocorocó", "Ouro, desça do seu trono", "Pam-pam-pam-pam", "Olhar assim" e muitos outros fizeram sucesso na voz de grandes nomes da música brasileira, como Mário Reis, Carlos Galhardo, Clementina de Jesus, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho, Candeia e muitos outros. Especialmente nas gravações de seus discípulos da Velha Guarda, suas músicas ganham mais emoção.

 

Em "Ouro, desça do seu trono", gravada primeiramente por Candeia e mais tarde por Luiz Carlos da Vila, Paulo transmite seus ensinamentos de que a honestidade está acima dos interesses e das ambições que já dominavam o mundo em seu tempo.

 

Alguns de seus amigos da Velha Guarda tornaram-se parceiros de Paulo, musicando ou atualizando antigas obras deixadas pelo mestre. Monarco, por exemplo, tornou-se parceiro de Paulo em "Quitandeiro" e "Linda Borboleta".

 

Algumas músicas de Paulo permanecem inéditas e esperam que alguma iniciativa resgatem-nas para que possam fazer sucesso, como "Sonho", "Conselho" e "Paulicéia", esta última em parceria com outro grande mestre do samba, seu amigo Cartola. Por mais inusitado que possa parecer, esses dois mestres possuem uma parceira em um jingle comercial que fez sucesso nas rádios da década de 40.

 

Dedicadas ao grande mestre, muitas músicas foram feitas em sua homenagem, como "De Paulo da Portela a Paulinho da Viola", "Um minuto de silêncio", "Meus sentimentos, Portela", "Sambista esquecido" e "Homenagem a Paulo". Destacamos especialmente "Homenagem a Paulo", de Ernani Alvarenga.

 

Homenagem a Paulo

(Ernani Alvarenga)

  

No Portelão falta a estátua 

Do Paulo da Portela

Todas as escolas perguntavam

Até a saudosa Favela.

 

Uns e outros dizem que estão errados

Recordação é lembrança do passado

As escolas de samba em silêncio

Quando partiu para a eternidade

Batuqueiros clamam porque

Ele deixou saudades

 

As escolas de samba em silêncio

Quando ele partiu para eternidade

Batuqueiros clamam porque

Ele deixou saudade la-raiá

 

Após seu afastamento da Portela, amargurado, Paulo compôs "Meu nome já caiu no esquecimento". Nisso Paulo estava errado, pois seu nome e suas composições permanecerão sempre vivos na memória do samba e de nossa cultura popular.

 

 O meu nome já caiu no esquecimento

(Paulo da Portela)

  

O meu nome já caiu no esquecimento

O meu nome não interessa mais ninguém

 

E o tempo foi passando

E a velhice vem chegando

Já me olham com desdém

 

Ai quantas saudades

De um passado que se vai lá no além

 

Chora, cavaquinho, chora

Chora, violão, também

O Paulo no esquecimento

Não interessa a mais ninguém

 

Chora, Portela

Minha Portela querida

Eu, que te fundei

Serás minha toda vida

 

 


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