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Entrevista João Baptista Vargens - 1ª parte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista com João Baptista Vargens - biógrafo de Candeia - em 17/08/2005 às 9h na Faculdade de Letras da UFRJ, Ilha do Fundão.

 

Dados pessoais:

 

-Nome completo: João Baptista de Medeiros Vargens

-Data de Nascimento: 24/07/1952

-Local de Nascimento: Rio de Janeiro (Hospital dos Servidores do RJ).

 

João Baptista M. Vargens, Professor-Doutor do Departamento de Línguas Orientais e Eslavas (ele é professor de árabe), recebeu a Equipe Portel@web em sua sala de trabalho na Faculdade de Letras da UFRJ. Era uma manhã de quarta-feira, com céu azul. Claro, portelense que é, vestia sóbria, discreta e elegante camisa azul. 

 

Entre diversos telefonemas da pastora Surica, da Velha Guarda da Portela, do Diretor do Departamento Cultural da Portela, Carlos Monte, e outras solicitações – e no intervalo de uma aula e outra – abriu coração e mente para lembrar do grande mestre Candeia.

 

Autor da biografia do Mestre (Candeia. Luz da inspiração, Rio de Janeiro, Funarte, 1997) e também de A Velha Guarda da Portela, com Carlos Monte, Rio de Janeiro, Manati, (2001), morou em Oswaldo Cruz dos 15 aos 26 anos. Uma época importante, porque é uma época de formação. Foi para lá quando estava cursando o 2º grau e todo o curso superior ele fez morando em Oswaldo Cruz.

 

Nesta quarta-feira, pudemos conhecer um pouco mais sobre sua obra e, ao mesmo tempo, reverenciá-la, sua ausência/presença entre nós.

 

Ah, aquela quarta-feira, dia 17 de agosto. Há 70 anos nascia Candeia.

 

PORTEL@WEB: E foi lá que o senhor começou a conhecer a Portela e o Candeia?

 

João Baptista: Não, eu já conhecia a Portela. Eu já era portelense. Agora, a primeira pessoa da Portela de quem eu me aproximei foi o Casquinha. O Casquinha era meu vizinho. Então nós conversávamos todos os dias até altas horas. Eu me lembro até do primeiro encontro. Eu vinha no ônibus chegando do meu colégio, eu estudava no Méier, no Colégio Visconde de Cairu, e o Casquinha embarcou no ponto da Portelinha. Na época não havia o Portelão. Aí quando eu desci, ele desceu também. Nós começamos uma conversa e ele:

 

-- Casquinha: Você gosta desse negócio de samba?

-- João Baptista: Claro, eu gosto!

-- Casquinha: Você quer ir amanhã a um encontro que vai haver lá na Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá? Estarão presentes alguns sambistas...

 

E marcamos às sete horas da manhã. Ele iria de carona com um colega dele, Jorginho 40, que tinha um caminhão. Dez para as sete eu já estava lá no lugar onde nós marcamos, pertinho das nossas casas, e o Casquinha não apareceu. Aí eu me dirigi à casa dele e fui informado que ele já tinha ido. Na verdade, ele tinha esquecido desse compromisso. A gente tinha marcado na véspera. Esqueceu... Viu assim um garoto de 15 anos e pensou que eu não fosse. Aí o que eu fiz: peguei um ônibus até Madureira e de lá peguei outro até a Colônia Juliano Moreira. Nesse dia eu tive contato com uma série de compositores da Portela: Walter Rosa, Ari do Cavaco... Paulinho da Viola, Waldir 59, Anésio... Era época de apresentação de samba-enredo.

 

 

 

PORTEL@WEB:Isso foi em que ano?

 

JB: Isso foi exatamente em 67. Estavam fazendo o samba pra 68, que foi “O Tronco do Ipê”, segundo José de Alencar. Então, talvez para se penitenciar por ter esquecido, o Casquinha me arranjou uma carona de volta. Acho que ele ia para outro lugar. E quem me deu a carona foi o Paulinho da Viola. O Paulinho na época morava na Rua 28 de Setembro. Casquinha pediu pra ele me deixar em Madureira e ele me deixou em casa, lá em Oswaldo Cruz. Então o meu início dentro da intimidade do portelense, entre os compositores, dá-se a partir dessa visita. Deu-se na verdade numa colônia de loucos (risos). Depois, em 70, dois anos depois, quando o Paulinho da Viola fez o disco com a Velha Guarda da Portela, havia encontros para ensaios e eu comecei a freqüentá-los, também pelas mãos do Casquinha. Ia sempre à casa do Manacéa (porque os ensaios eram na casa do Manacéa). Foi lá então que eu me aproximei do grupo que hoje é a Velha Guarda da Portela. Naquela época eram jovens senhores da minha idade mais ou menos, talvez até mais novos que eu. Eu me senti bem, sabe. Eu fui muito bem tratado, muito bem acolhido. Daí surgiu uma grande amizade. Forte, muito forte com alguns como o Chico Santana, Manacéa. E até hoje eu conservo a amizade com as famílias dessas pessoas.

 

PORTEL@WEB: E o Candeia, como o senhor o conheceu?

 

JB: O Casquinha foi o grande parceiro do Candeia, né? Segundo Candeia, o seu maior parceiro. Certa vez, Roberto Moura entrevistou Candeia para o Pasquim e ele fez uma pergunta: “Candeia, de quem você queria ser parceiro: Caetano Veloso, Milton Nascimento, João Bosco, Chico Buarque?”. E ele foi descartando um a um com muita inteligência, dizendo: - Milton Nascimento é um grande compositor, mas ele faz umas vocalizações... Ele faz uma música diferente da minha. Chico Buarque é gênio e eu não posso ser parceiro de gênio. E assim também ele encontrou adjetivações para os outros. E finalizou dizendo que, entre todos esses, ele gostaria de ser parceiro do Casquinha. Então foi o Casquinha que me levou ao Candeia, embora eu tenha ido sozinho, com as minhas pernas.  Casquinha falava muito do Candeia e dizia que ele morava na Rua Albano, em Jacarepaguá, perto da Praça Seca. Na época eu tinha 15, 16 anos e o meu primeiro emprego foi como vendedor de livros (eu sempre vivi de livros: estudando, vendendo e escrevendo). E eu fui visitar uma aluna da Faculdade de Letras (na época eu ainda era secundarista) na Rua Albano, a qual era filha do então delegado de Caxias. Saindo de lá, eu perguntei se ela conhecia a casa do Candeia. Ela me indicou onde era e eu fui até lá (eu estava até com uniforme porque da rua eu ia direto para o colégio, além de o fato de estar uniformizado ajudar a vender). Então eu bati lá. Dona Leonilda, mulher do Candeia, me atendeu de forma muito receptiva. Eu me apresentei como colega do Casquinha e o Candeia me recebeu. Eu saí de lá abarrotado de letras de samba. Batemos um papo longo. Ele me serviu bolo, guaraná (coisa de criança ainda). Depois a amizade foi se estreitando e em 72 nós concorremos ao samba da Portela (eu fiz uma letra, e o Casquinha e o Davi do Pandeiro fizeram a música) e fomos bater um papo com o Candeia para saber o que ele achava. Eu acho até que ele deu uma opinião... sei lá... para prejudicar o samba, porque ele estava concorrendo também (risos). Ele sentiu que o nosso samba era forte. Mas ele se deu mal, porque o nosso samba foi até as quartas-de-final e o samba dele foi cortado logo. Ele tinha feito com o Wilson Moreira. Depois até esse samba foi gravado, não mais no ritmo de samba-enredo.

 

PORTEL@WEB: Como ele era pessoalmente?

 

JB: Muito gentil, muito agradável. Impetuoso, cheio de idéias. Queria fazer tudo. Conversava com várias pessoas ao mesmo tempo. Era um sujeito que tinha um intelecto brilhante. Em 75, com a criação da Quilombo, nós nos aproximamos mais ainda. Eu, inclusive, escrevi o manifesto da Quilombo. Isso aí lá na casa dele... ele tinha me falado que queria fazer uma outra escola de samba. Uma escola de samba que não tinha nada a ver com essas escolas de samba que existem ou que existiam na época. Então, quando cheguei a minha casa eu escrevi o manifesto da escola na parte seca da folha de um embrulho que eu trazia comigo. Só mudou-se um verbo por sugestão do jornalista, e também fundador da Quilombo, Juarez Barroso (já falecido). Esse texto foi traduzido para diversas línguas. A Quilombo teve uma grande divulgação e, na época da repressão militar, qualquer entidade, seja qual fosse, que conseguisse arrebanhar um grande número de pessoas, era vista como perigosa. Eles acreditavam que não fosse um movimento só cultural, que houvesse também algo de política...

 

PORTEL@WEB: Mas havia. Não partidária.

 

JB: É, a política estava ali. Era, obviamente, um movimento político. Nós tínhamos um compromisso, um princípio. Agora, houve uma repercussão grande. Talvez porque a própria comunidade suburbana ou até da própria cidade estivesse precisando daquilo. Então nós fizemos reuniões lá com 3.000 estivadores, outros tantos trabalhadores da construção civil. Isso era uma ameaça!

 

PORTEL@WEB: Isso em 75, né?

 

JB: De 75 até o Candeia morrer em 78.

 

PORTEL@WEB: Quer dizer, na verdade pré-Sindicato dos Trabalhadores no ABC.

 

JB: É, antes do Lula. Lula surge em 78. Quando o Lula surgiu, eu estava estudando em Damasco, na Síria. Eu viajei em setembro de 78. Lá é que eu vi as confusões todas. Passava na televisão vindo de São Paulo. Foi aí que os metalúrgicos começavam a tomar corpo. Mas isso foi antes... Então, eu acho que o fato de a gente aglutinar muita gente... Mas as pessoas iam também mais por causa do samba, por causa do feijão. Nós conseguíamos juntar grande número de pessoas pelos artistas que iam lá também: Martinho da Vila, Clara Nunes, Roberto Ribeiro. Então a gente fazia semanas culturais. Já que o foco estava lá, nós não perdíamos a oportunidade. Lançamento de discos, por exemplo, nós fizemos lá. Foi uma época muito interessante. Muito fértil. E nós tínhamos lá também Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Wilson Moreira... Era um timaço!

 

PORTEL@WEB: De que forma o Candeia falava de Portela, dos amigos dele?

 

JB: Candeia era um portelense bastante identificado com a escola. Aos 17 anos ele ganhou o primeiro samba na Portela, desbancando Manacéa, que era o ganhador dos sambas-enredo. Mas ele tinha um espírito de liderança nato e então ele estava vendo que estava perdendo essa liderança dentro da Portela, até mesmo como compositor. Ele nunca foi dirigente, mais como compositor. A Portela estava levando pessoas do rádio, como Jair Amorim e Evaldo Gouveia. Achavam que com esses nomes ela teria um maior espaço na mídia.

 

PORTEL@WEB: Tanto que em 1974 eles ganharam o samba “O Mundo Melhor de Pixinguinha”, né?

 

JB: Ganharam. Ganharam duas vezes eu acho.

 

PORTEL@WEB: E depois em 78.

 

JB: É, em 78 que deu aquela repercussão toda. Então ele estava sentindo que não tinha espaço mais ali. Havia duas alternativas: uma era lutar internamente e seria difícil, tanto é que o presidente só saiu no ano passado; e a outra era fundar uma escola de samba. E ele achou mais prático. E teria mais visibilidade.

 

PORTEL@WEB: O descontentamento dele na Portela era com a estrutura que veio com a chegada do Carlinhos Maracanã? Além disso, entrou também o Hiram Araújo, que assumiu o departamento cultural.

 

JB: Não... olha só... a Portela foi sempre uma escola que abrigou gente de toda a cidade. Uma escola vencedora. Então era mais do que natural haver grandes adeptos. Além de tudo, é uma escola de planície, não é de morro. Então era fácil de você chegar. Você ir à Mangueira já era mais complicado. Subir o morro do Salgueiro era mais complicado. Por causa disso, a Portela sempre foi muito freqüentada. Paulo da Portela também era um diplomata. Então sempre houve isso. O que nós questionávamos era que as posições de mando, de dirigentes... os sambistas da Portela, de Oswaldo Cruz, começaram a perder... não há problema algum de uma pessoa de um lado da cidade freqüentar o outro lado. Eu mesmo sempre fiz isso. Eu gosto da Portela e gosto do Jóquei Clube Brasileiro. Agora, o que não pode, e aí eu acho que houve uma distorção, é o sujeito que é convidado pra ir à casa do outro e já querer mandar. E pessoas alheias. O Hiram mesmo é um sujeito super bem-intencionado, portelense, né? Mas certa vez ele falou uma coisa numa entrevista para um jornal (acho que era “O Estadão”. Não lembro... Era um jornal que ficava ali perto da Rodoviária) que a função dele e dos seus companheiros era levar cultura para a escola de samba. Então... é uma visão estereotipada! A escola de samba tem a sua cultura. Na verdade, ele estava querendo dizer escolaridade. Mas não era isso de que a Portela precisava. Tanto não era que ela perdeu o seu rumo. Você vê que no tempo em que as pessoas de lá faziam o Carnaval ela ganhava. Obviamente, houve uma transformação e hoje não ganharia com aquele time de lá. Mas eu acho que há a possibilidade de você fazer uma conciliação das duas coisas.

 

PORTEL@WEB: Até porque o Candeia sempre pregava: o problema não era as pessoas virem de fora, era a exclusão de quem estava dentro.

 

JB: Até dizia: Hoje em dia a Portela tem mais cacique do que índio.

 

PORTEL@WEB: Até porque, em 73, as pessoas já estavam saindo. Por exemplo, compositores como o Bubu da Portela, que se afastou em 73.

 

JB: É, chegou ao ponto em que você não encontrava mais ninguém da tradição da escola dentro dos ensaios. Hoje em dia mesmo... eu não tenho acompanhado de perto, mas parece que só nos primeiros sábados de cada mês, quando a Velha Guarda faz a feijoada, é que a coisa acontece. Caso contrário, ninguém está lá. Não existe mais o espaço, né? A escola de samba, eu creio, como um todo, não apenas a Portela, era a extensão da casa das pessoas. Pessoas pobres que não tinham dinheiro para entrar de sócio de um clube. Então não era a escola de samba só no dia de carnaval. Era a escola de samba do ano todo. As pessoas comemoravam seus aniversários. Eu mesmo comemorei alguns aniversários na Portela. Eu levava bolo. Quando havia a Festa da Penha, as pessoas faziam pernil, farofa e levavam para a barraca das escolas de samba na Festa da Penha. Quer dizer, havia uma interação. Era uma comunidade toda integrada, compreende? Quando cresceu, os dados identificadores foram se perdendo. Então você vai para a Portela como você vai para o Salgueiro, como você vai para a Mangueira. Para se distrair. Então, há sempre redutos de resistência. Então você vê a Velha Guarda “grande” da Portela (não digo a Velha Guarda Show). Eles têm lá a Portelinha. Eles fazem almoço nos dias de domingo, tá entendendo? Quer dizer, é uma saída. Quer dizer, o Portelão já não serve para eles, porque ali eles não são pessoas identificadas e identificáveis. São um... qualquer. Aí eles procuram um outro cantinho e levam a vida. Então hoje em dia há, na minha opinião, duas escolas de samba (não é só a Portela. Qualquer escola de samba): existe a escola de samba do carnaval que não tem nada a ver com a escola de samba local. A do carnaval é outra. A comunidade não participa. Então a Portela, por exemplo, tem o seu barracão lá no Cais do Porto. Aquilo é uma coisa. O pessoal da escola nem sabe o que vai aparecer no dia do carnaval. Não sabe. Na hora que chega lá embaixo é que o sujeito vai olhar para a alegoria. Às vezes, nem isso hoje em dia se vê. O cara desfila e não vê a alegoria. Antigamente, não: o sujeito acompanhava. Ele chegava lá. O barracão normalmente era no subúrbio. Aí ele chegava:

 

            - Pô, tá precisando de alguma coisa?

            - Quê que você sabe fazer?

            - Então vamo lá! Eu ajudo!

 

Entendeu? Era um trabalho de todo mundo. Agora são profissionais. Não adianta escapar! Hoje em dia não adianta escapar. Mas eu acho que há condições de você tentar contornar isso. Uma oficina, por exemplo, de costura. Marcenaria, entendeu? A escola pode criar oficinas que, inclusive, propiciem uma profissionalização das pessoas do lugar. O Nilo (presidente Nilo Figueiredo, que assumiu a administração da escola em 2004) entrou com umas idéias interessantes. O Carlos Monte é uma pessoa muito sensível. Mas ele (o Nilo) tem também um temperamento assim... complicado. Um temperamento militar, de quartel. E Portela não é isso. Em outra escola pode até ser, mas... eu acho que ele tem que mudar um pouco, né? Portela é uma escola de cortesia. Uma escola de educação pela sua própria história. Paulo da Portela é dito como socializador do samba. Então o portelense não gosta de grupo de ordem. O portelense está mais para o Itamaraty do que para a caserna.

 

PORTEL@WEB: Porque o portelense, mais ou menos, já sabe o que e como fazer, né? Porque a disciplina portelense independe...

 

JB: O portelense é disciplinado. Tanto é disciplinado que ele ficou trinta anos lá com o Carlinhos Maracanã e não criou caso. Só foi criar agora (risos). Então não é brincadeira. Trinta anos... Agora, é disciplinado! Se fosse no morro, não faria isso. Nenhuma escola de morro tem um presidente durante tanto tempo. Eu tenho amigos de outras escolas de samba e que visitam a minha casa também. O sujeito da Portela para cada vez que ele ia ao banheiro... Manacéa, Chico Santana sempre diziam “Dá licença, eu vou ao banheiro”. Já o sujeito de uma outra escola assim, se bobeasse ele fazia num pé de abacate. É uma escola diferente! Mas isso se mantém até hoje. Não sei se é por força de segurança hoje em dia ou até da fidalguia mesmo...

 

PORTEL@WEB: Acho que é o fundamento da escola...

 

JB: Pelo Paulo, né?

 

Mas hoje vai muita gente de fora. Mas eu acho que o sujeito que chega lá e vê aquele comportamento... O Lan diz que quando ele chegou da Argentina, pediu ao Édson Carneiro – antropólogo, que estava fazendo uma pesquisa sobre as escolas de samba – que o levasse até as escolas de samba. Então um dia o Édson convidou, num domingo de janeiro, para eles irem ao Salgueiro e o Lan aceitou. Nessa época, o Lan trabalhava num jornal e o Édson Carneiro deu um gravador daqueles enormes de rolo para ele carregar (ele era novinho, né?). Ele acha até que foi convidado para carregar o gravador (risos). E disse: “Você aceite tudo que oferecerem lá pra você, viu? Porque senão é desfeita”. Na época o Salgueiro ficava lá no alto do morro. Aí os caras vieram com um conhaque e ofereceram para os quatro (para dois professores, que também tinham ido com eles, pro Lan e pro Édson Carneiro). Os três falaram: “Lan, toma!”. Aí tomou os quatro. E saiu de lá bêbado (risos). Um sol danado... Aí ele (Lan) disse: “Poxa, isso é que é escola de samba?”. Quinze dias depois, eles foram à Mangueira. Aí chegaram lá na Mangueira para fazer a entrevista e só o Xangô estava lá. Eles tinham combinado antecipadamente, mas só o Xangô que estava lá. Chegou a vez da Portela, quinze dias depois. Quando eles chegaram na Portela, as mulheres todas de azul, os homens todos de branco e de chapéu os receberam de mão estendida e com comida... O Lan falou: “Bom, aqui é o meu lugar!”. Isso mostra que havia essa diferença.

 

PORTEL@WEB: Voltando um pouco para a Quilombo, por que você acha que as sugestões que o Candeia levou à Diretoria da Portela na época nem mesmo foram debatidas?

 

JB: Acho que a diretoria achava que estava no caminho certo, né? Naquela época se falava muito em transformação. O próprio Hiram, que era o coordenador do carnaval, achava que tinha que mudar mesmo. Achava e acha até hoje. O Jair Amorim e o Evaldo Gouveia, por exemplo,  foram convidados para fazerem o samba. E eles já sabiam que iam vencer. Então um monte de gente perdendo tempo, quebrando a cabeça... Então que eles chegassem e fizessem como o Nésio fazia na Tradição: eles não tinham ala de compositores e encomendavam ao João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Mas ninguém ficava perdendo o seu tempo. Então essa era a diretriz. O Carlinhos Maracanã queria ganhar o carnaval também. Ele não era maluco. Agora, o caminho que ele seguiu não foi um bom caminho, né? Você que tem um timaço de compositores como a Portela... Na época você tinha cinqüenta, no mínimo, “cobrões”... Poxa, você precisava importar compositores de outros tipos de música? Que eram grandes compositores! Seresteiros, né? Eles têm uma obra lindíssima, né? E eles tinham agradado também à Portela, porque tinham feito um samba falando da Wilma: “Como é que eu posso por ela trocar, a emoção de ver Wilma sambar...” (cantou João Baptista). E a Wilma era a grande dama da Portela. Eu acho que a culpa não é dele (do Carlinhos Maracanã), não. A culpa foi da Portela mesmo. Aí eles (Jair Amorim e Evaldo Gouveia) fizeram o samba. Há até quem goste do samba, mas só que não era um samba com as características da Portela. Aliás, isso é um outro ponto importante também: cada escola de samba tinha a sua característica. Poxa, você dizia assim: “Esse samba é o samba bom pra Portela. Esse samba é um samba bom pra Mangueira, né?”. Havia um casamento entre a bateria e o samba. Hoje em dia o sujeito faz samba para todas as escolas. Dizem que existe aí um escritório.

 

PORTEL@WEB: Várias, várias...

 

JB: Várias firmas. O sujeito não conhece a alma daquela escola, a alma do ritmo...

 

PORTEL@WEB: E não respeita nem a tradição melódica da sua comunidade, né?

 

JB: É! E aí complica por isso. Existe já uma homogeneização, né? Você não difere mais quase nada. Antigamente Portela entrava na avenida e você sabia que era Portela pela batida da bateria. Mangueira também. Mas essas pessoas não. Elas não cresceram dentro daquela comunidade. Você ia num samba da Mangueira... chegava cinco horas da manhã, estavam descendo batuqueiros pra assumir a posição dos outros que iam dormir. Cinco horas da manhã! E o samba rolava até as nove, dez horas! Você estava dormindo, mas estava ouvindo a bateria de lá. Você era pequenininho e estava ouvindo aquilo. Então, para ele, bater samba era daquele jeito: aquele surdo... aquela marcação única, né? Da Portela já era um outro tipo. Agora não: você importa diretor de bateria; você “compra o passe” do cuiqueiro. Aí perde a característica.

 

 

 

 

 

Entrevista realizada por Rogério Rodrigues e Vanderson Lopes.


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